Mostra Labmis 2012

Maldita Parede André Asai e Maria Risi

Instalação Performática

Sobre o Projeto

  • Maldita Parede /Instalação Performática

    A instalação performática mistura mitologia romana a interfaces tecnológicas para discutir a escassez da comunicação direta no mundo contemporâneo, que cada vez mais dá lugar a relações virtuais e encontros intermediados pelo computador, mesmo quando a distância real entre as pessoas é curta.

    O conceito e o desenho do projeto se baseiam no mito romano de Píramo e Tisbe, dois apaixonados que foram proibidos de se encontrar e se comunicavam apenas por uma pequena rachadura na parede. Ao tentarem um encontro real, por um engano acabam morrendo aos pés de uma amoreira.

    A Maldita Parede impede o contato direto dos performers, que ficam em um dos lados da caixa. O público – que aqui assume o mensageiro - será o responsável por restabelecer a comunicação entre eles, e poderá ouvir os fragmentos de textos que falam sobre a incapacidade das relações humanas.

    Instalação performática

    1,95 x 2,60 x 1,80 m 1 computador, 3 monitores, duas câmeras, dois microfones, 2 amoreiras, 1 caixa de som e 2 cubos (1,30 x 1,30 x 1,80 m)

    Orientação conceitual Maurício Ianês Orientação técnica Alexandre Ribeiro de Sá

    Agradecimentos: Cybelle Honda, José Osmar de Araújo Jr, Julia Risi, Rodolfo Colombo, Selene Alge

  • André Asai e Maria Luísa Risi /Bio

    André Asai é designer gráfico, game designer e ilustrador. Cursou artes visuais na UNESP e já teve trabalhos expostos no Centro Cultural da Juventude e no FILE Games. É o criador e organizador do Spjam - Maratona Paulista de Desenvolvimento de Jogos.

    Maria Luísa Risi graduou-se em artes visuais pela UNESP. Participou de exposições coletivas, criou a revista OROBORO, De Arte. Foi assistente de curadoria da Galerie de l’Entrepôt (Paris-França).

  • Texto do orientador /Maurício Ianês

    Maldita Parede

    “C’estuntexte plus large et toujoursouvert qui ne se limite pas à du discours.”

    “É um texto maior e sempre aberto que não se limita apenas ao discurso.” (em tradução livre)

    “Le langage (Le Monde au téléphone)”, Jacques Derrida - Le Monde Dimanche, 1982.

    "J'appelledispositif tout ce qui a, d'unemanièreoud'uneautre, la capacité de capturer, d'orienter, de déterminer, d'intercepter, de modeler, de contrôler et d'assurer les gestes, les conduites, les opinions et les discours des êtresvivants."

    “Eu chamo de dispositivo tudo o que tem, de uma maneira ou de outra, a capacidade de capturar, de orientar, de determinar, de interceptar, de modelar, de controlar e de assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres vivos.” (em tradução livre)

    “Qu’est-cequ’est un dispositif?” – Giorgio AgambenEditions Rivages, 2007. Traduzido do italiano por Martin Rueff


        A espera. Uma ação, silenciosa na maior parte do tempo, exceto quando o público decide participar desta ação. Dois artistas, sentados em cabines vizinhas, separados um do outro por uma fina parede comum a estas duas cabines. Cada um dos artistas possui um aparelho de comunicação em sua cabine, ativado pelo público.

        Os artistas esperam, cada um, que o outro comece a falar. Não, os artistas esperam o público. Sem a ação do público, o trabalho não se realiza, e os artistas não saem da sua espera.

        Cada artista tem consigo uma seleção de citações de autores diversos, a maior parte delas vindas de textos poéticos. Todas elas falam, de um modo ou de outro, desta situação de comunicação controlada, de silêncio e de fala forçados, de olhares desencontrados e de diálogos interrompidos, e são escolhidas durante a ação aleatoriamente no momento em que a comunicação se torna possível graças à participação do público. Uma fala normatizada e repetitiva – sim, porque de repertório limitado e circunscrito. Estas citações, em geral, falam do próprio ato de falar, do discurso, das suas limitações e barreiras, e da sua dissolução em sua própria mídia – a linguagem, o texto, a voz.

        O público participa da ação ao apertar o botão que conecta os dois artistas e o público, fazendo com que um artista seja capaz de ouvir o outro através de uma ligação digital, que também poderá ser ouvida pelos participantes. Aqui, o participante controla e é responsável pelo contato entre os dois artistas, e pelo contato destes consigo.

        O que se tem em jogo aqui é a fala – ou seja, a voz em seu papel de instrumento comunicativo, vinda de um emissor que possui, pelas características físicas da sua voz, um papel bastante singular, já que a sua identidade é clara, e seu texto é uma ação, um gesto, carregado de qualidades outras que não apenas a gramática da língua, o discurso e a linguagem, mas que possui som, textura, entonação, que respira e tem face. Temos aqui no entanto uma complicação: esta fala, esta voz não tem face. Ou tem, mas não para todos os participantes envolvidos na ação, já que os artistas não se veem. Esta voz, este discurso sem face é um discurso mediado por um instrumento exterior ao homem – telefone, computador, etc. Apesar de criados e utilizados para religar duas ou mais pessoas distantes, estes aparelhos muitas vezes eliminam, como no caso do aparelho usado nesta ação, a face, o rosto do emissor do discurso. Neste caso também, o público que opta por participar da ação, apesar de controlar o discurso e o tempo de diálogo dos artistas, não possui voz, não pode responder ou participar desta conversa, apenas ouvir o que os artistas falam.

        O que se procura aqui, espera-se – afinal estamos no campo das artes plásticas – não é responder como o discurso e a comunicação é alterada de forma radical por esta triangulação mediada por dispositivos de comunicação, isolamento e controle, mas inserir dentro de um contexto poético, mas também político, a questão de como a linguagem mesmo dá origem e é modificada pelo seu uso, pela sua técnica, e pela sua própria função de mídia e dispositivo.

        “The wind dropped, and the lovers
        Sang no more,(…)”
        “O vento parou, e os amantes
        não mais cantaram, (…)” (em tradução livre)
        “Thank You for Not Cooperating “, John Ashbery.