Mostra Labmis 2015

SOMIMAGE Marcello Nass Ruggiero

Sobre o Projeto

  • Somimage

    O projeto Somimage propõe uma investigação da relação existente e pertinente aos campos visual e sonoro. Pautado pela relação da imagem com a trilha sonora que há na estrutura do cinema, questiona o limiar entre o que é visual e sonoro, e mostra como criamos correlações imagéticas depreendidas dos sons. O som constrói imagens, e nos faz navegar por elas, ao mesmo tempo que as imagens contam histórias, e essas possuem trilhas que fazem parte delas.

    Composta por vídeo, pintura e fotografia, todos eles permeados pelo áudio que traz novas artes sonoras, a obra propõe ao receptor da imagem – que é ao mesmo tempo ouvinte – interpretações subjetivas que permitam depreender a sonoridade de cada imagem. O público, aqui, se faz presente como intermediário e experimentador desta investigação áudio/visual.

    INSTALAÇÃO
    Pintura (óleo sobre tela, 64 x 105 cm), fotografia (105 x 64 cm), vídeo (4’19”)
    Áudio MP3 (2’34”, 4’46”, 4’19”)
    ORIENTADOR André Ricardo de Almeida

  • Marcello Nass Ruggiero /Bio

    Marcello Nass Ruggiero nasceu em São Paulo, em 1978. Formado Publicidade e Propaganda (PUC-SP), atua como artista independente nos campos da música, pintura, fotografia e vídeo. Fotógrafo com extenso trabalho em filme PB, já expôs na Dinamarca e na Inglaterra. Editou o documentário sobre as missões folclóricas de Mário de Andrade pela TV Cultura e Senac. Dirigiu e editou o documentário Comunidade sk8 pela Coop. Paulista de Cinema. Suas fotografias venceram os concursos ILFORD e VOLCOM, e uma de suas fotos integrou uma exposição comemorativa dos 450 anos de São Paulo

  • Texto crítico /André Ricardo de Almeida

    A relação entre o som e a imagem, as possibilidades narrativas que se podem tecer pela junção desses dois elementos, é para o artista Marcello Nass uma questão que ultrapassa as fronteiras do vídeo ou do cinema. Os trabalhos produzidos ao longo da sua residência no LABMIS apresentam uma diversidade de meios expressivos, misturando pintura, fotografia, som e vídeo. O interesse pela multiplicidade de linguagens parece se conectar muito diretamente com a trajetória do artista, já que sua formação profissional não se inicia propriamente em artes visuais, mas em comunicação social e publicidade, curso através do qual ele teve contato com a fotografia e o audiovisual.

    Para o projeto de residência no LABMIS, Marcello desenvolveu três obras, cada qual conta com uma peça sonora específica.

    No vídeo, as imagens, embora estáticas, são animadas como em uma sequência de slides. O som é peça fundamental na passagem de uma imagem a outra, acentuando os contrastes entre elas e determinando a sua duração, que também é diversa. Apesar da aparente simplicidade das imagens, é marcante a presença do som como propositor de climas e narrativas. A trilha sonora é produzida a partir de instrumentos musicais convencionais ou através de registros sonoros que remetem ao objeto presente nas imagens. As garrafas, por sua vez, remetem à história da pintura, não apenas por ser um elemento marcante no gênero de natureza morta, mas também pela dimensão metafísica das composições, aludindo à pintura italiana do início do século XX, como as obras de Giorgio Morandi e Giorgio de Chirico. Postas em um espaço geometrizado, como uma caixa branca com o fundo vazado para a paisagem, as garrafas têm sua presença tencionada no espaço, trazendo a paisagem para seu interior ou espelhando sua forma no vazio. Forma que, inclusive, pode adquirir aparência monumental ou criar um jogo dúbio entre continente e conteúdo quando postas lado a lado. Dependendo do contexto compositivo, chegam até mesmo a assumir certa personalidade, se comportando como personagens em uma cena. Mais uma vez, o som atua como um elemento que interfere e conduz a leitura do observador sobre a imagem, reforçando uma narrativa.

    Por fim, a pintura. Uma composição em blocos densos de amarelos, cinzas e pretos sob um fundo azulado. A composição e o ritmo dos gestos e áreas de cor criam uma situação rítmica que se adensa no tempo da observação. Essa dimensão temporal que a obra instaura se aproxima da música, desdobrando-se num determinado espaço de tempo. Tal constatação não é uma novidade, e, mais uma vez, sugere uma citação à história da pintura, sobretudo na primeira metade do século XX por artistas que se voltaram à ideia de abstração em arte. Poderíamos pensar em Kandinsky e Paul Klee, por exemplo. Fato que nos faz questionar sobre a pertinência da gravação sonora que acompanha a pintura. Afinal, se na pintura já existe uma dimensão sonora/musical/temporal, qual seria então a pertinência de adicionar o som? Não seria este um gesto redundante?

    Olhando a obra com distanciamento, compreendendo-a apenas como um objeto acabado e encerrado em si mesmo, essas questões provavelmente encontrariam uma resposta afirmativa. Por outro lado, poderíamos também pensar no uso de recursos sonoros na produção de documentários sobre a obra de artistas. Na maioria dos casos, a imagem da obra é acompanhada por uma trilha que sublinha seu conteúdo, podendo, como costuma acontecer, engrandecer sua presença ou reforçar aspectos subjetivos.

    Contudo, no caso da obra apresentada por Marcello, a peça sonora não é exatamente uma leitura da pintura ou a pintura uma ilustração do som, bem como, este não está posto para sublinhar a pintura. Na verdade, as linguagens não se hierarquizam na constituição da obra, o que se prioriza é perceber as possibilidades que essa relação pode oferecer enquanto proposição poética. Fundar um caminho entre a produção de uma pintura e a especulação sonora é, desse modo, o problema no qual o artista se debruça.

    O potencial especulativo dessa tensão entre som e imagem se evidencia ainda mais nos pequenos desenhos em papel que Marcello executou como uma espécie de estudo e processo de pesquisa para o projeto. Nos esboços, o que se privilegia é a comunhão entre o pensamento e a produção. Realizados em papéis de dimensões modestas, as anotações assumem uma rica variedade de recursos e proposições com uma profunda conexão com o som. Ao unir imagem e som fica evidente a interação entre um e outro, e, mais do que isso, a constituição de um vocabulário plástico sonoro muito particular. O que está em jogo nesses estudos não é um resultado a priori, mas a formulação de perguntas, ou seja, o pensamento posto na dimensão do fazer.

    Outro elemento importante no processo do artista é o uso de um violão cujos braços ele revestiu com pequenos filetes de papel colorido, cada qual servindo como referência a uma nota. A correspondência entre as cores e as notas se dá pela intuição, seguindo uma lógica própria, sendo esta pautada nas sensações cromáticas dos sons. Voltando à pintura, poderíamos pensar as cores da paleta de Marcello também como elementos sonoros. Estas, quando depositadas na tela, ganham variações, se dilatam ou retraem, se afirmam luminosamente ou se miscigenam produzindo novos timbres. O modo como o artista aplica a tinta na superfície também é um fator fundamental na constituição de vibrações. As massas de cor são postas com certa franqueza de gesto, parecem mais preocupadas com a ação construtiva, do que com a produção de efeitos. As frestas de branco, as áreas que foram deixadas intactas na tela, contribuem para a vibração das massas, deixando-as mais luminosas e trêmulas. Os vazios que ecoam em partes da pintura, bem como os ruídos, se adensam quando escutamos a gravação. Esses intervalos só existem porque tem algum estofo sonoro que engendra a obra. É a presença do som, mesmo que ainda não externalizado em uma gravação, que parece fomentar os gestos, as cores e os espaços da pintura de Marcello.

    Ficha técnica
    Orientador conceitual: André Ricardo de Almeida
    Orientador técnico: Marcos Ribeiro