Mostra Labmis 2015

A SAGA DO HERÓI Lívia Pasqual

Sobre o Projeto

  • A SAGA DO HERÓI

    A saga do heróié um fragmento de narrativa, uma sequência extraída de um possível filme de gênero. A cidade do filme é composta por maquetes de empreendimentos imobiliários contemporâneos, implantados em uma paisagem árida, empoeirada, como se fosse a manhã seguinte a um fenômeno natural de grandes proporções. A narrativa em diferentes escalas e a proximidade com o gênero cinematográfico dialogam com a premissa de que toda fotografia é uma ficção que se apresenta como verdadeira. A obra propõe uma reatualização do curta-metragem como montagem intelectual, construção heteróclita, que vai além da contemplação da obra de arte.

    VÍDEO
    6’45” em looping
    Projetor, caixa de som
    6’52”, 5’53”, 6’10”, 4’47”, 5’20”, 3’40”
    ORIENTADOR Sérgio Alpendre

  • Lívia Pasqual /Bio

    Lívia Pasqual é graduada em Realização Audiovisual (Unisinos), pós-graduada em Fotografia de Conceito e Criação (EFTI, Madrid, Espanha). Foi finalista da Bolsa Iberê Camargo (2012), integrou o projeto LABVERDE – Experimentações Artísticas na Amazônia (2013) e participou do programa de residência artística na SÍM (Reykjavik, Islândia, 2014).

  • Texto crítico /Leonardo Azevedo Felipe

    Deus Zenital

    Entendendo a representação como o processo dinâmico de estabelecer relações entre a realidade e os signos que a representam, Lívia Pasqual se pergunta: “É toda fotografia uma ficção?”

    À Lívia interessam problemas que dizem respeito aos homens e à forma com a qual eles se organizam no espaço. É por esta razão que seu olhar tantas vezes se assenta sobre a arquitetura. A partir da premissa que considera o objeto arquitetônico como espaço de representação, onde a imaginação se materializa adquirindo qualidade tátil, Lívia usa de licença poética para recorrer a uma acepção mais teatral do que é representação, que considere a realidade um produto tão encenado quanto, por exemplo, um filme ou um minimundo com seus habitantes de brinquedo. A partir deste expediente, ela imagina o lugar de morar como um simulacro.

    Dois gigantes lutam em uma paisagem árida, entre prédios que parecem ter sido abandonados depois de uma catástrofe. Os edifícios de A Saga do Herói são maquetes semelhantes às que anunciam os novos empreendimentos imobiliários que infestam as cidades brasileiras de grande ou médio porte. O filme nos faz lembrar das fotografias de maquetes de Thomas Demand, a quem também interessam os simulacros – ainda que nas criações do artista alemão o dado político seja menos evidente. É política o que escapa de dentro da maquete, conforme sugerem as leituras das narrações fora de escala, alegorias das agruras deste mundo que “contribuem para cartografar a nossa terra de ninguém”. Lívia se vale das ideias do filósofo espanhol Fernando Castro Flórez, mas vai além: “Não se trata, portanto, de averiguar as possibilidades de simulação da realidade, golpes de vista propostos pelo minimundo: a narração em diferença de escala, além de permitir alegorias do mundo, questiona se há um campo poético na fenda que se abre ao transformar sujeitos que habitam o domínio do real em ficções da mesma classe das maquetes, através da imagem fotográfica e videográfica”. Por detrás da enorme caixa preta do universo, deve haver um Deus filmando-nos lá de cima através de um plano zenital.

    Do herói sabemos que é a figura chamada por Jung de arquetípica, detentor de atributos morais que o levam à superação de um problema épico. Heróis nascem em momentos de adversidade extrema e mitologicamente ocupam uma posição intermediária entre as divindades e os homens. Entretanto, o herói é uma construção que pertence a um contexto cultural e histórico. De quantas figuras em poses heróicas petrificadas em monumentos não conhecemos as maiores pusilanimidades? Resta saber o que move nosso herói que vaga na terra de ninguém realizando a simulação de ser do tamanho de edifícios. Seria ele um soldado letrista lutando por novos modos de habitar, modos que escapem da lógica construtora do financiamento que nos empoleira em maquetes de escala épica?

    Tendo como base o esquema desenvolvido pelo estudioso da narrativa, Joseph Campbell, conhecido como a “Jornada do Herói”, o fragmento de saga no filme de Lívia evidencia a circularidade da jornada heroica, que sempre recomeçará. As teorias de Campbell tiveram enorme influência na criação de roteiros para Hollywood, incluindo o da saga Guerra nas Estrelas. Despido da profusão de efeitos especiais, o filme de George Lucas é sugerido no curta-metragem, reduzido a dois Jedis no deserto – tal qual uma maquete. Na realidade ficcional de nossa terra de ninguém não há espaço para as naves estelares, sobram apenas escombros de lucro desmedido e superfaturamento em nome do progresso.

    “Propriamente é o erro da maquete que me interessa encontrar. O centro de gravidade da pesquisa é o momento posterior ao da ilusão ou do simulacro; é onde o real se apresenta em confronto com a sua representação”, revela Lívia lá do alto. Na ficção do vídeo, realidade e representação se chocam como dois guerreiros em confronto. Impossível afirmar quem vencerá a batalha.

    Ficha técnica
    Orientador técnico: Tiago Reckziegel Bello
    Orientadores conceituais: Leonardo Azevedo Felipe e Sergio Alpendre