Mostra Labmis 2015

Identifico-me Xeno Patrícia Passos

Sobre o Projeto

  • Identifico-me Xeno

    Identifico-me Xenoconvoca e discute, em amplo espectro, a sensação do “ser” diferente daquele que é oriundo de uma geografia que não a ocupada por um “eu” que se entende anterior, primeiro, autêntico e melhor que qualquer indivíduo de origem diferente da sua, pelo simples motivo de não reconhecer a possibilidade de compartilhar seu espaço ou condição, em qualquer esfera ou dimensão, com o outro.

    A artista seleciona, de um lugar diverso da cidade em que vive e sobrevive, testemunhos e revelações que ora denunciam, ora reverberam experiências comuns, em tangências pontuais e flagrantes intersecções.

    “Um” disseminado em “todos”. O “ser” humano, em temporalidade infinita, fragmentado, equalizado, diverso e despersonificado.

    Na espacialização dispersa, rodeado da presença de ausentes, ativados pelo passo distraído do visitante em campo minado, o preconceito latente da fobia excludente presentifica-se em uma única identidade.
    Myrna de Arruda Nascimento

    INSTALAÇÃO
    6’30” (duração do áudio)
    Fotografia (40 x 40 cm), sensor de presença, caixas de som, placas de EVA, papel-cartão, cobre, placas de acrílico, led
    6’52”, 5’53”, 6’10”, 4’47”, 5’20”, 3’40”
    ORIENTADORA Myrna de Arruda Nascimento

  • Patrícia Passos /Bio

    Patrícia Passos é natural de Fortaleza. Trabalha com cenografia em projetos voltados para o teatro e o cinema. É graduada em Arquitetura (UNIFOR), pós-graduada em Design de Interiores (Senac São Paulo) e mestre em Arquitetura, Arte e Espaços Efêmeros (Universidade Politécnica da Catalunha). Dedica suas pesquisas e trabalhos a instalações e performances que discutem a conexão entre cidades e indivíduos.

  • Texto crítico /Myrna de Arruda Nascimento

    Antes de se tornarem manchetes diárias os atos de rejeição àqueles com os quais os agressores dizem não se assemelhar, em qualquer aspecto, Patrícia Passos já havia definido o tema de seu projeto de residência artística da edição de 2015 do LABMIS.

    Identifico-me Xeno convoca e discute, em amplo espectro, a sensação do “ser” diferente, oriundo de geografia que não aquela ocupada por um “eu” que se entende anterior, primeiro, autêntico e melhor que qualquer indivíduo de origem diferente da sua. Tudo pelo simples motivo de não reconhecer a possibilidade de compartilhar seu espaço ou condição, em qualquer esfera ou dimensão, com o outro.

    A artista “estrangeira” e “estranha” à cidade de São Paulo, natural de Fortaleza e pós-graduada na Catalunha, experimentou em sua trajetória pessoal e profissional o embate provocado pela discriminação, distraída ou revelada, implícita ou camuflada.

    A sensação forasteira familiar, desconectada do cenário promissor anunciado pelo fenômeno da globalização, prenunciada desde as últimas décadas do século passado, virou matéria de interesse e desafio para a migrante. O discurso dissimulado e propagador da integração sócio-econômica-político-cultural das comunidades internacionais e seus membros, graças à aproximação das relações humanas obtida pelas facilidades de comunicação física e virtual, desenvolvidas no contexto contemporâneo, foi tensionado. O estranhamento de quem não se reconhece na sociedade com a qual convive, e na cidade em que sobrevive.

    Patrícia, de um lugar estranho, identificada com tantos outros de todas e nenhuma parte, seleciona histórias, testemunhos e revelações que ora denunciam, ora reverberam experiências comuns, em tangências pontuais e flagrantes intersecções. “Um” disseminado em “todos”. O “ser” humano, em temporalidade infinita, na sua máxima tradução de diversidade e continuidade.

    Cada indivíduo selecionado pela artista alastra, com a voz, os limites de seu território privado, gerando os contornos invisíveis de uma zona comum de trânsito e deslocamento imprevistos.

    A pressão do passo visitante, ato aleatório em campo minado, aciona o som dos depoimentos anônimos. Sem rosto e sem expressão, os sinais refletidos evocam o pixel e o recurso técnico utilizado para a reprodutibilidade das imagens, que furtaram a “aura benjaminiana” das obras artísticas do século XIX

    Os personagens aqui são muitos, não sendo ninguém. A fragmentação dos corpos entrevistados em imagens equalizadas subtrai deles qualquer marca particular, e lhes imprime a despersonificação característica.

    Na espacialização dispersa, rodeado da presença de ausentes, o visitante da instalação pressente o preconceito latente da fobia, excludente e conciliadora das diferenças, em uma única identidade.

    Ficha técnica
    Orientador técnico: Paloma Fraga Carvalhedo