Residência Artística 2013

Samanta Fluture São Paulo /SP

Bio

É formada em publicidade pela ESPM, com especialização em Estéticas Tecnólogicas pela PUC e Artes pela Central Saint Martins em Londres. Cursa mestrado em Tecnologias de Inteligência e Design Digital na PUC. Tem experiência de trabalho em produção, gestão e métricas de conteúdo para plataformas digitais, além de gerenciamento de projetos de arte e produção cultural. Seus trabalhos e pesquisas focam no desenvolvimento de conteúdo convergente para plataformas digitais com foco em comunicação móvel, mídias locativas e criação de aplicações para dispositivos móveis.

O projeto

Passageiro /Instalação Interativa

Com a vida apressada do dia-a-dia, em que as pessoas da cidade grande estão sempre se movimentando e passam a maior parte de seu tempo em transição, dentro de meios de transportes, vivenciando experiências porém sem compartilhá-las com as pessoas ao seu redor, o projeto propõe a facilitação do ato de filmar, compartilhar e explorar estas experiências, através de um aplicativo de celular.

O aplicativo permite que o usuário grave um vídeo com a câmera do celular, adicione informações do local em que se encontra, seu percurso e meio de transporte utilizado, e o compartilhe. Além de colaborar com suas experiências, o usuário também pode assistir aos vídeos gravados próximos ao local em que se encontra, através da navegação em mapa ou visualizando os vídeos em uma única sequência, como um filme realizado por vários “cineastas”.

Processo Work in Progress

App Passageiro (em testes)

Uma das coisas que tenho estudado para este projeto é o "esvaziamento do sentido comunitário da metrópole" com a aceleração da informação e da tecnologia, que hoje compõe o ambiente de forma a alterar totalmente a interação do homem com o espaço, passando por conceitos de desterritorialização e da própria estrutura rizomática de Deleuze.

Para entender como o espaço é, então, reconfigurado e somado à ele novas linguagens e possibilidades, antes de tudo parto do princípio de que a própria definição de espaço e sua cartografia tradicional são afetadas. Usando um local bastante íntimo à mim, contraponho um mapa que desenhei à mão, por cabeça, com um mapa que o Google Maps me apresenta deste mesmo local, levantando uma questão já bastante discutida de como mapeamos o espaço de acordo com nossas percepções, memórias e experiências, distorcendo a geografia tradicional.

Com a cidade em rede, de wifis abertos e aparelhos móveis conectados, essas nossas funções cognitivas são expandidas e se somam ao meio que vivemos, tornando inerente à natureza humana vivenciar a cidade ampliada e deslizar por entre os diversos territórios criados pelo constante estado de mobilidade. Assim, comunicar é deslocar, é estar em movimento.

Usando a cartografia colaborativa e a disponibilização de uma abundância de dados pela internet, usei a ferramenta open source CartoDB para criar um mapa que visualizasse na cidade de São Paulo somente os meios de transporte (estações de metro e trem, terminais de ônibus, aeroportos, linhas e vias destes transportes) - simbolizando a instância de passagem e de estar sempre em movimento - e os pontos de wi-fi em áreas públicas que serão instalados pela Prefeitura até o final deste ano pela cidade - simbolizando a conexão, a hipermobilidade, a sociedade em rede.

>> Mapa interativo

Com o mapa quis ilustrar a experiência de se deslocar constantemente e de estarmos equipados para nos comunicar a todo instante, resultando em uma constante desterritorialização. Aqui, o espaço é justamente o que vai sendo criado pelos movimentos entre coisas, lugares e corpos.

Estes são alguns dos estudos que me levaram a construir o projeto e que estão me ajudando a desenvolver o aplicativo mobile Passageiro, para iOS, que permite ao usuário gravar vídeos de seus momentos de passagem pela cidade e observar os locais a sua volta através dos olhos dos outros passageiros, navegando em vídeos e mais vídeos que formam uma teia de experiências e histórias distintas de um mesmo local.

Desenvolvimento

Para que o projeto ganhe forma, primeiro foram traçadas as funções e interações do aplicativo, a partir de um fluxo de informações e, posteriormente, wireframe de todas as telas. Depois, foram criadas as artes para cada tela do aplicativo, envolvendo ícones e traços característicos para o projeto, que lembrassem mapas escritos à mão. Com todas as artes prontas, o projeto passou para a fase de programação para iOS, usando o XCode e um simulador que prevê o funcionamento do aplicativo rodando as funções programadas.

Para a exposição do projeto, pretende-se disponibilizar o aplicativo rodando em um iPhone para que possa ser experimentado em todas as suas formas, como rede social, como captura e compartilhamento de vídeo e como documentário multimídia visualizado tanto por mapa quanto por filmes em sequências.

Orientação técnica Estúdio Lateral

Manifesto 'Passageiro'

Fruto da tendência de se mover constantemente na vida, escaneando ambientes, buscando sinais e deslocando a atenção de um ponto a outro, existe um desejo de ser um nó vivo em uma rede, de conectar e ser conectado, de não perder nada, vivendo em movimento, em alto estado de alerta e ansiando por flagrar um momento, congelar o ir e vir apressado do mundo urbano contemporâneo repleto de encontros acidentais e atividades efêmeras, de eternizar o instante documentando e compartilhando instantaneamente antes que se acabe, tudo isso possibilitado pelas câmeras embutidas nos aparelhos celulares com alguma conexão. É aí que entra o projeto Passageiro, possibilitando que sua passagem solitária se conecte com a de alguém.

Com este projeto, está sendo construída uma rede móvel de múltiplos olhares dos espaços da cidade por passageiros em movimento, transformando os meios de transportes - lugares de passagem, coletivos porém desprovidos de interação social e caracterizados pela fugacidade, anonimato e enfermidade - em verdadeiros espaços de experiências compartilhadas. Todo o conteúdo do aplicativo é carregado por um passageiro que, quando está de passagem, realiza registros de momentos que passam, na tentativa de eternizá-los e compartilhá-los.

Os vídeos resultantes do projeto, e suas relações com geolocalização do usuário e com sua navegação no aplicativo, terão o espaço e a cidade como personagens, caracterizando a relação dos seres humanos com os espaços em que se encontram e vivem, percebidos não apenas com os sentidos, mas de fato vivenciados pelas pessoas que se projetam neles e estão ligadas a eles por laços emocionais. O aplicativo possibilitará a documentação de como o espaço não é apenas percebido, mas vivido.