Residência Artística 2013

Timothy Leyendekker

Bio

Timothy Leyendekker (1973) possui formação e mestrado em Fine Arts (Willem de Kooning Acamdemie e Sandberg Instituut respectivamente). O artista holandês trabalhou como curador e produtor em diversas exposições artísticas e festivais de cinema, como o Internationaal Film Festival Rotterdam (IFFR) de 2012. Em 2013 foi palestrante convidado no Interfaculty ArtScience (Sandberg Instituut). Suas obras exploram os limites do cinema como narrativa, trabalhando com camadas fragmentárias e obscurantismo pessoal, muitas vezes empregando estratégias de desconstrução.

O projeto

BLINDER

O artista partiu da obra de José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira, Blindness em inglês), para criar um filme que combina fotos, em rápida sucessão, e trilha sonora para formar uma narrativa. A obra final será um curta onde o tema da cegueira é explorado através de efeitos plásticos aplicados às fotografias utilizadas e uma trilha sonora que usa a narrativa do filme homônimo de Walter Salles (2008) como base. Seu projeto será uma compilação de interpretações sobre a cegueira como uma doença social que tem relações profundas com a indiferença e o individualismo experienciados no século XIX.

Texto Crítico

O cinema e a literatura ressonam em “Blinder” Por Daniela Gillone

A ideia do filme Blinder (2013) surgiu do interesse do diretor holandês Tim Leyendekker em fazer uma releitura do livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. O fato de já ter sido feita a adaptação desta obra literária com o mesmo título para o cinema por Fernando Meirelles, em 2008, determinou o desafio em realizar um filme que ressonaria ambas as versões (literária e cinematográfica). Da versão audiovisual, o som é o único elemento que é ressiginificado no filme de Leyendekker. Esta sua escolha se deu por uma das condições que ele se impôs de não ver o filme, só ouvi-lo – como se ele fosse um espectador cego que não teria acesso as imagens do cinema. Com isso, ele transporia para si as dificuldades que Saramago criara para suas personagens cegas. Colocar-se nas condições das personagens do livro para se fazer espectador deu sentido ao exercício de concepção do filme. Assim o diretor assumiu a sua condição de espectador que se despoja do ilusório domínio para intercambiar a posição de observador racional.

A proposta deste filme parte da postura de uma emancipação do ver e do ouvir, como já definira Jacques Rancière ao falar de seu espectador emancipado que questionaria a posição entre assistir e atuar. Quando se quer romper com as evidências das relações do dizer, do ver e do fazer pertencentes as estruturas da dominação e da sujeição o resultado é o de atuar sobre a obra. Realizar, então, uma outra obra a partir dessa atuação é exercício de ressignificação. A maneira como Leyendekker reconstrói a história do livro em seu filme é linear e ao mesmo tempo fragmentada. Ele recorre aos substantivos da obra literária para construir com uma linguagem fragmentária a sua própria recusa em ler uma frase completa. São com essas barreiras auto-impostas que o som do filme e o texto do livro são ressignificados. Esta interposição parece influenciar nos filtros que ele cria para captar as imagens e selecionar arquivos de imagem e som.

Ao contrário do filme de Meirelles, as imagens de Blinder dizem respeito somente aos locais de São Paulo e às pessoas que circulam pela cidade. As imagens e sons de arquivo selecionados, concedidos pelo Instituto Moreira Salles e pelo Museu da Imagem e do Som (MIS), foram agenciados com as fotografias produzidas a partir da representação de homens e mulheres deficientes visuais, integrantes da Fundação Dorina Nowill para Cegos (São Paulo). As ressignificações das personagens parecem ser resultantes de uma postura que se afirma em contrapor-se à lógica do cinema mainstream, que visa presença de atores renomados e internacionais. A representação dos deficientes visuais locais é, também, uma via de aproximação à realidade dos brasileiros. Neste intuito, as imagens das personagens-reais do filme foram captadas na própria Fundação. Os planos das situações cotidianas desses cegos significariam a busca do diretor pela conscientização de uma suposta condição real. Por outro lado, as imagens dessas novas personagens refletem em uma tentativa de escape da moldura ficcional. Já que os enquadramentos erráticos, os desfoques, e a quebra da mise-en-scene para fotografar as personagens são alguns dos recursos que reforçam o formalismo fragmentário final.

As imagens de arquivos sobrepostas às imagens das personagens exuberam o que existe de subjetividade no filme. Com todos esses materiais brutos (foto-composição e imagens de arquivo sobrepostas), o diretor consegue criar um conceito que reverbera de suas próprias barreiras impostas. Todos esses materiais corroboram com a formalização da sua experiência como espectador-realizador que definiria seu próprio caminho para contar a história de Saramago. Essa busca de contar a história a partir de seu ponto de vista reforçaria a caracterização deste seu filme-ensaio, que parte de um ensaio ficcional literário sobre a cegueira. Através das imagens, Leyendekker faz uma releitura do livro, a partir das barreiras auto-impostas e da necessidade de transpô-las formalmente. Através do processo de associação de um elemento iconográfico com duas ou mais imagens, sua montagem define significados que não são aparentes se determinado ícone estiver fora da montagem. São com esses significados alcançados através das imagens justapostas que o filme estrutura sua poética.

Esta condição de filme-ensaio ou mesmo de experimentações chamadas remix, mashups, e found footage influenciaram precisamente o momento de ressonar as referências literárias e cinematográficas no filme junto aos supostos significados que preencheriam as lacunas. E não se trata apenas do agenciamento de imagens de arquivo e fragmentos de áudio com fotografias recentes e a seleção cronológica de nomes no livro. O formalismo dos planos e das interferências sonoras evidencia que a narrativa vai se materializar, justamente, na questão formal. As barreiras auto-impostas têm uma função mediadora que definiria o formalismo do filme. Esta mediação ancoraria o espectador a refletir sobre as pressupostas barreiras no processo de realização. Essa opção de conduzir o espectador a pensar sobre o aspecto formal do filme retoma o conceito do discurso da opacidade, que se opõe ao cinema da transparência ou “janela do mundo”.

Sobretudo, o caminho encontrado é a montagem. Do corte seco entre uma imagem e outra a uma escassa série de fotos sucessivas que conformariam a fluidez, o conceito que irá permear em todo o filme é o de barreira e a fragmentação que surge por meio desta. Os diferentes tipos de fragmentos de imagens utilizados no filme, assim como os diversos recursos sonoros (trilha, narração, ruídos e diálogos) e como esses elementos são agenciados, com suas características, fazem com que este filme seja pensado dentro de um contexto de renovação estética que se encaixaria no experimentalismo de um filme-ensaio.

Nesta análise sobre o processo de produção do Blinder, partimos da necessidade de se discutir o filme expondo o modo pelo qual ele está organizado. Esta análise interna da obra estaria em um procedimento diferenciador da análise técnica, já que a proposta desta análise é não se fixar em normativas, como propõe o exercício da “imanência” de Theodor Adorno, que recusa o uso de métodos e conceitos predefinidos para uma análise e que propõe uma reflexão que supõe uma constante revisão da estética implicada na obra. Através da análise imanente o aprofundamento foi possível a partir do detalhe para avaliar o conjunto e compreender a experiência estética em seu exercício singular. Essa dinâmica de analise permitiu a evocação sensível da experiência estética que tivemos da obra. Nesse sentido, a invenção adorniana de um modo (entre outros) de falar da experiência que temos da obra também abre o espaço para a própria experiência da obra.

Ao mesmo tempo em que o filme Blinder recusa um método de adaptação que traria para o diretor uma projeção da coerência final, fica pressuposta a elaboração de um método que ainda não tenha se tornado código. Junto a esta análise do filme temos a irrevogável condição de se discutir um suposto método que está implícito nas barreiras propostas pelo diretor. Por fim, salientamos que são com todas as recusas as normativas e com os métodos fugidios que a proposta se materializou para ter um espectador que observa, compara, interpreta e participa de uma obra que pode ser criticada a sua maneira.