Residência Artística 2014

Manon LaBrecque

Bio

Manon LaBrecque vive e trabalha em Montreal. É formada em Dança Contemporânea e Artes Visuais. Artista multidisciplinar, desde 1991 realiza vídeos, performances, imagens fixas, instalações cinéticas e sonoras. Suas obras videográficas foram apresentadas em diferentes festivais canadenses e no exterior. Em 2009 recebei o prêmio Prix graff, e em 2013 o prêmio Louis-Comptois, pelo conjunto de seu trabalho artístico.

Manon LaBrecque vit et travaille à Montréal. Elle possède une formation en danse contemporaine et en arts visuels. Artiste multidisciplinaire, depuis 1991, elle réalise des vidéos ( monobandes et installations ), des performances, des images fixes, des installations cinétiques et sonores. Ses oeuvres vidéographiques ont été diffusées dans différents festivals au Canada et à l’étranger. En 2009, elle recevait le Prix graff, puis en 2013 le Prix Louis-Comptois; prix décernés pour l’ensemble de son travail artistique.

O projeto

Jogo de fissões e fusões
Jeux de fissions et de fusions

PT Observar... Captar Dividir a realidade do outro para extrair um de seus componentes... Mesclar com este componente para ser capaz de sentir uma conexão com o outro... Prática de se relacionar com o outro e consigo mesmo.

FR Observer…Capter… Fissionner la réalité de l'autre pour en extraire une de ses composantes... Fusionner avec cette composante pour pouvoir sentir un lien avec l'autre… S'exercer à créer des liens avec l'Autre et en soi même.

www.manonlabrecque.com

Texto crítico

Por Renato Bulcão, novembro de 2014

Alguns artistas trabalham com um tema que perseguem. Manon Labrecque trabalha com a ideia do duplo. Para ela, a fragmentação da identidade está sempre em discussão, seja para criar a união do ser, seja para examinar apenas um aspecto humano.

Manon desvela uma poética quando captura seu movimento corporal e o reinterpreta. O corpo é instrumento para a percepção do que acontece dentro e fora dele. Funciona como um sensor das realidades que a artista percebe como mútliplas, que precisam de distanciamento para melhor serem percebidas por terceiros.

O som é grande adjetivo. Sua inclusão serve ao estímulo da percepção visual. Mas é a percepção do espectador que deve reanimar a obra, recriando através dos sentidos sua própria experiencia final. Ãs vezes há alguma intencionalidade proposta por Manon, mas há sempre liberdade para que o espectador se insira no vagar entre união e fragmentação.

Esta estratégia visa despertar os sentidos, para que o corpo não esqueça sua capacidade sensora. Este fenomeno deve resignificar a realidade o tempo todo, e em tempo determinado, alcançar a vulnerabilidade dos sentidos.

A obra de Manon Labrecque propõe uma assincronia formadora, onde a intenção da imagem não redunda o som. A proposta audiovisual é uma proposta de experiência do audio e distanciamento do visual. Mesmo suas imagens não narram seguindo os limites do tempo, mas apenas registram a existência de movimentos que podem existir e ser alcançados pelos corpos; o seu próprio enquanto modelo, e o do espectador enquanto reflexo dos movimentos exibidos.

O reflexo do espectador deve eliciar internamente uma série de sensações que em combinações sensíveis, constróem sentimentos. O espectador deve ser afetado pelo movimento registrado com uma situação individual de expressão afetiva. Não uma afetividade piegas e passiva, nem uma afetividade decorrente de uma narrativa cogniscível, mas dos afetos que físicamente são sugeridos enquanto respostas aos impactos dos fragmentos de imagem e som propostos.

Para a artista, as pulsões interiores do espectador devem revelar seus próprios mecanismos sensíveis. Esta é a forma que toma suas obras anteriores, criando uma continuidade de proposta daquilo que ela vem também experimentar na residência no MIS. Sua proposta é criar aparelhos para despertar sensibilidades.

Manon Labrecque reside e trabalha em Montreal. Sua linha de trabalho capta a dicotomia de quem nasce numa situação de dupla narrativa, a partir de uma nacionalidade que pensa numa língua, mas se expressa em duas.

Sua formação em dança contemporânea e artes visuais estão intimamente ubricadas em sua obra. Artista multidisciplinar desde 1991, seus vídeos e instalações sugerem que o espectador devem ser instado a mover-se de acordo com os sentidos percebidos.

Labrecque participou de exposições coletivas em galerias e museus como a coletiva de artistas canadenses na Galerie Ex- Teresa , México (1997), Culbutes,oeuvres d'impertinence (1999) / la Triennale Québecoise (2008) no Musée d'Art Contemporain de Montréal, Intrus/Intruders (2008) / Femmes artistes du XXe siècle au Québec (2010) no Musée National des Beaux–Arts de Québec e na Liverpool Biennal International (2010).

Seus trabalhos em vídeo foram apresentados em festivais no Canadá e no exterior. Alguns trabalhosforam premiados no encontro do Cinema Québécois ( 1998 e 2007), no Encontro Vídeo e Arte Eletrônica Internacional (1995) e na Transmediale , em Berlim (2000).Em 2009 , ela recebeu o Prêmio Graff, em Montreal, pelo conjunto de sua obra artística.

Suas exposições individuais incluemLesantigravitationnels , Vu PHOTO, curadoria de Nicole Gingras ; Machines, les formes du mouvement, Manif Internationale d'art 6 de Québec (2012); Manon Labrecque, Musée de Rimouski (2010); Mécanismes d'intérieurs, na Galerie Dazibao, Montréal (2008); Manon Labrecque, na Galerie Séquence, Chicoutimi (2006) et Les témoins , Galerie UQAM, curadoria de Nicole Gingras, Montréal (2003).

Encontro Manon numa sala branca, muito clara, com pequenas janelas altas que mais me lembraram Amsterdam. Sentada numa mesa, pesquisava no computador alguma idea. Ao lado da janela estava um grande desenho de suas mãos abertas em cor vermelha sobre fundo branco, como se mostrassem que não há nada a esconder.

Junto comigo chegam buzinas de motocicleta. Ao lado delas, pequenos circuitos eletrônicos que podem ser montados como peças de encaixe. Uma tela de acrílico transparente está pendurada do teto. No mais, branco espelhando o vazio do espaço.

Ela começa a falar da grande diferença entre Montreal e São Paulo. Encantada com a possibilidade de residência num museu brasileiro, jamais imaginou o gigantismo da cidade, e nunca ouviu tanto barulho.

Sugere que o espaço da rua pode ser medido pelo efeito doppler, em razão da grande quantidade de motocicletas cruzando a Rua Augusta em todas as direções. Os sons de suas buzinas atravessam o espaço num jogo de aproximação e afastamento. Não há como não sentir o perigo se aproximando e se afastando. Há medo, cautela, surpresa, elementos que Manon conhece muito bem.

"Não é uma continuação direta do meu trabalho, das minhas reflexões," diz ela desempacotando as buzinas. Mas certamente que sua proposta de instalação de despedida do período de residência está diretamente inspirado pela continuidade de sentir o mundo, e de apresentar estes sentimentos ao público.

Os sons das buzinas na rua sugerem atenção aos sentidos, mas também às contorções necessárias para que as pessoas atravessem a rua sem ser atropeladas pelas motocicletas. A regra é se movimentar com atenção, com o senso de preservação apurado. Ela vai tentar reproduzir o efeito numa instalação breve no muse.

Os sons das buzinas devem sugerir as motocicletas indo e vindo, atormentando o visitante enquanto ele atravessa o espaço. As sensações devem espelhar as dificuldades da vida cotidiana. Ela faz uma demonstração com uma buzina. Pergunto se a afinição das buzinas devem sugerir algum tipo de padrão musical. Ela responde que pode modular as buzinas em padrões diferentes, mas não deseja fazer música. Seu interesse é eliciar as sensações.

Um pequeno mimo ao público paulista em sua selva de concreto. Num breve sorriso ela conclui que não há praias, nem selva, nem animais, se não soubesse que está no Brasil, estaria apenas noutra cidade grande.

Ela volta ao duplo, motivo maior de sua inspiração. Sente que nós somos nós mesmos e mais alguém ou alguma coisa que nos cerca. Como se um gêmeo invisível nos fizesse companhia.

Ela pega o desenho pendurado e o prende na tela de acrílico. Projeta uma luz e se põe à frente dela para projetar sua sombra sobre a tela. Abre os braços e projeta suas mãos que formam sombras desenhadas sobre o desenho das mãos vermelhas. Finalmente encosta as sombras das mãos sobre o desenho.

Percebo que o duplo se conforma na unidade representada no desenho: Uma unidade composta novamente pelo duplo – as duas mãos. Pergunto se a busca pelo duplo termina sempre em unidade, e ela responde que a busca não termina. Esta busca deve ser recomposta pela vivencia do espectador em sua obra. As respostas devem estar no movimento dos corpos e suas sensações na interação com a obra.

A fusão é a complexidade da percepção do todo, enquanto as fissões são os diversos elementos propostos para que se encontre estas possibilidades de integração entre sensações. Os elementos criam um espaço abstrato que a razão não decodifica – é preciso mover-se para sentir.

As experiências propostas são etéreas. Mas as sensações devem buscar uma concretude nos sentidos. É como se sua proposta de arte devêsse atuar sobre o corpo do espectador, convidando-o a exercitar uma dança contemporânea, não ensaiada nem prevista. A arte surge do corpo do espectador como percepção de que os movimentos são inspirados pelas sensações, quando então o corpo deixa os movimentos mecanicos para descobrir novas posturas.

Reflito sobre as outras instalações que conheço e a maior diferença entre o trabalho de Manon Labrecque e dos outros artistas buscando provocar sensações no corpo do espectador , são os materiais utilizados. Ela propõe luz e sombra, onde outros apresentam texturas de materiais. Ela sugere o espaço livre, quando os demais criam bolhas, conchas e labirintos. O som vem para provocar reações, e não para entreter, nem mesmo para incomodar. E o espectador tem de se haver com o espaço livre, sem guias precisos, precisando voltar-se para dentro de si e de seus movimentos reativos para descobrir a experiência artística.

Não é arte fácil, objeto de consumo rápido para provocar sorrisos ou caretas. Não é arte para ser observada através de selfies. Seu trabalho não se projeta sobre o espectador, mas dentro dele. São como uma teia invisível amarrando os espaços, onde o espectador vai se debater até encontrar a harmonia do estar.

São Paulo é uma residência de reflexão. O calor do verão se aproxima, com uma chuva que teima em não acontecer. Manon sente a diferença de clima. Em breve estará de volta ao inverno de Montreal. Esperamos que o tempo entre nós tenha permitido que, entre o labirinto promovido pelos motoboys e o espaço imaculado do MIS, ela tenha experimentado novas sensações que em breve estarão incorporados à sua obra.