Residência Artística 2014

Marcelo Fontana São Paulo / SP

Bio

Marcelo Fontana nasceu em 1989, em São Paulo, onde vive e trabalha.

Fotografo e artista, trabalha com discussões sobre as inúmeras relações entre imagem e o Ser Humano. Bacharel em Fotografia pelo Senac São Paulo, (2008-2011), participou de exposições em São Paulo-SP e Vitoria-ES. Artista do grupo Atelie Fidalga (2012) , é colaborador do coletivo Panela da Pressão, voltado para o fomento de cultura e integração artística.

O projeto

Estruturação

O Projeto visa desenvolver e executar uma vídeo instalação e performance utilizando como matéria básico um acervo de fotografias em slides. O projeto sofrerá intervenções do grupo selecionado pelo MIS, que contribuirão para experimentações desenvolvidas durante a residência LABMIS. As fotografias retratam viagens, eventos e o seu cotidiano familiar. Elas tem como único objetivo afirmar a existência. Em nenhum momento deixam de ter o caráter de reafirmar a memória.

O objetivo constituirá em fazer interferências nestes slides para constituir a videoinstalação abordando colagem e sobreposições. Partindo da ideia Goethe, “Não ha razão de trazer o passado de volta a não ser para fazer algo novo.” O intuito é expandir ao máximo a latência deste acervo e de suas imagens. Criando paralelos e significados fazendo com que estas imagens adquiram sentido.

Texto do orientador

Mirtes Marins de Oliveira - dezembro, 2014

As viagens culturais surgem dentro do contexto da modernidade. Desde o século XVIII, jovens – especialmente os ingleses - viajavam à Roma e arredores em busca de enriquecimento cultural por meio do contato com a produção artística e das ruínas arquitetônicas da Antiguidade. O mesmo deslocamento também servia para o encontro com a experiência sublime das paisagens desconhecidas.

A invenção da fotografia, no século XIX, trouxe aos viajantes um recurso adicional: não bastavam mais a aventura e o relato nos diários de viagens, era possível e necessário o registro, que fornecia de maneira imediata uma ilustração àqueles sem condições de visitar lugares e costumes distantes. Não mais restritas ao continente europeu, as viagens difundiram modelos de apreensão cultural, e sua documentação fotográfica, a propagação de maneiras padronizadas de visualizar a experiência. A foto testemunha a presença do fotógrafo em determinado espaço e tempo, mas para alcançar seu efeito documental, precisa submeter-se à uma prova de reconhecimento: é necessário que permita a identificação dos fotografados: pessoas, objetos e lugares.

No século XX, o aprimoramento tecnológico dos processos fotográficos, mas também dos meios de transporte e dos sistemas de circulação, proporcionou a popularização e barateamento das práticas de fotografar e de viajar, possibilitando exercitá-las de forma quase irrestrita.

O trabalho de Marcelo Fontana busca outros significados para os registros de viagem, ao elaborar uma delicada instalação que reúne slides e fotografias tiradas por duas gerações de uma mesma família – a sua – em seus projetos de desbravamento cultural. Apropria-se de retratos e paisagens fotografadas pelo avô, em viagens à Europa, durante os anos 1960 e 1970, e as articula aos seus próprios registros produzidos nos anos 2007 e 2008, destruíndo em ambas as capacidades documentais da experiência.

O que poderia resultar apenas em um jogo de caráter afetivo e familiar, toma outros rumos, já que os movimentos da globalização que perpassam os dois conjuntos de imagens – econômicos, mas também sociais e políticos – permitiram ao jovem artista viajar para o leste europeu, algo impensável nos anos da ditadura brasileira e período da Guerra Fria, quando seu avô realizou as primeiras fotografias e slides. A derrocada do sistema comunista na Europa reconfigurou o mundo, e modificou as possibilidades de deslocamentos pelo planeta, atingindo detalhes mínimos da vida pessoal.

As imagens produzidas por Fontana evocam a metáfora dos palimpsestos, que eram, em sua origem, pergaminhos raspados para possibilitar a reutilização do suporte na inserção de novos textos. Na sobreposição ou na justaposição das projeções das fotografias – suas e de seu avô – a mescla de imagens familiares é também um amálgama, mostruário de um museu imaginário do viajante, no qual são apresentadas as cidades, seus monumentos turísticos, seus personagens típicos e a presença eventual do turista atestando que "esteve ali". Mas, torna inevitável a pergunta: em que medida as fotografias produzidas em viagens são únicas e correspondem à uma sensibilidade singular de seu autor?

Na contra-mão dessa percepção, Fontana elabora ambientes nos quais transforma o registro mecânico da experiência vivida em viagens, em experiências sensíveis. Mesmo assim, as camadas de fotografias de um mesmo lugar (em tempos diferentes) que o artista sobrepõe, não geram uma certeza ou reconhecimento imediato daquela cena, pelo contrário, como nos palimpsestos, geram confusão, dúvidas e incertezas.