Residência Artística 2015

Lívia Pasqual

Bio

Lívia Pascal nasceu em Caxias do Sul, RS, em 1984. Vive e trabalha em Porto Alegre. Formada em Realização Audiovisual (Unisinos/Brasil 2009) e pós-graduada em Fotografia de Conceito e Criação (EFTI/Espanha 2011). Em 2012 esteve entre os finalistas da Bolsa Iberê Camargo; integrou o projeto o LABVERDE - experimentações artísticas na Amazônia, em 2013; em 2014 particiou do programa de residência artística na SÍM - Samband Íslenskra Myndlistarmanna - Reykjavik/Islândia e, em 2015, integra o LABMIS, programa de residência artística do Museu da Imagem e do Som.

Nas séries Cinco Espelhos (LABVERDE 2013), Quase Sempre Dia (2014) e A Saga do Herói (MIS 2015), recorre ao filme e à fotografia para investigar as relações possíveis entre espaços arquitetônicos ficcionais (maquetes ou cenários) e elementos que pertencem à dimensão do real. A narração fora de escala, para além dos golpes de vista propostos pelo minimundo, permite alegorias do mundo; abre um campo poético na fenda que existe entre ilusão de realidade e noção de simulacro.

O projeto

A SAGA DO HERÓI

O filme é uma sequência, como se extraído de um longa-metragem, que se passa em uma cidade fictícia de um Brasil futuro, pós-catástrofe. O Brasil construído no filme é feito com maquetes de empreendimentos imobiliários contemporâneos, implantados em uma paisagem árida, empoeirada, como se fosse a manhã seguinte de um fenômeno natural de grandes proporções. A narrativa se concentra na luta entre dois personagens que, ante essa cidade diminuta, são gigantes.

Texto crítico

Por Leonardo Azevedo Felipe

Deus Zenital
Entendendo a representação como o processo dinâmico de estabelecer relações entre a realidade e os signos que a representam, Livia Pasqual se pergunta, apoiada em alguma literatura:

É toda fotografia uma ficção?

À Livia interessam problemas que dizem respeito aos homens e à forma a qual eles se organizam no espaço. É por esta razão que seu olhar tantas vezes se assenta sobre a arquitetura. A partir da premissa que considera o objeto arquitetônico espaço de representação, espaço onde a imaginação se materializa adquirindo qualidade táctil, Livia usa de licença poética para recorrer a uma acepção mais teatral da representação, que considere a realidade um produto tão encenado quanto, por exemplo, um filme ou um minimundo com seus habitantes de brinquedo. A partir deste expediente ela pode imaginar o lugar de morar como um simulacro.

Dois gigantes lutam em uma paisagem árida, entre prédios que parecem ter sido abandonados depois de uma catástrofe. Os prédios de A Saga do Herói são maquetes semelhantes às que anunciam os novos empreendimentos imobiliários que infestam as cidades brasileiras de grande ou médio porte. O filme nos faz lembrar as fotografias de maquetes de Thomas Demand, a quem também interessam os simulacros. Ainda que nas criações do artista alemão o dado político seja menos evidente. É política que escapa de dentro da maquete, conforme sugerem as leituras que vêem nas narrações fora de escala alegorias das agruras deste mundo que “contribuem para cartografar a nossa terra de ninguém”. Livia se vale das ideias do filósofo espanhol Fernando Castro Flórez, mas vai além: “Não se trata, portanto, de averiguar as possibilidades de simulação da realidade, golpes de vista propostos pelo minimundo: a narração na diferença de escala, além de permitir alegorias do mundo, questiona se há um campo poético na fenda que se abre ao transformar sujeitos que habitam o domínio do real em ficções da mesma classe das maquetes, através da imagem fotográfica e videográfica”. Por detrás da enorme caixa preta do universo, deve haver um Deus filmando-nos lá de cima através de um plano zenital.

Do herói sabemos que é esta figura que Jung chamaria de arquetípica, detentor de atributos morais que o levam à superação de um problema de escala épica. Heróis nascem em momentos de adversidade extrema, e mitologicamente ocupam uma posição intermediária entre as divindades e os homens. O herói, entretanto, é uma construção que pertence a um contexto cultural e histórico. De quantas figuras em poses heróicas petrificadas em monumentos não conhecemos as maiores pusilanimidades? Resta saber o que move nosso herói que vaga na terra de ninguém realizando a simulação de ser do tamanho de edifícios. Seria ele um soldado letrista lutando por novos modos de habitar, modos que escapem da lógica construtora do financiamento que nos empoleira em maquetes de escala épica?

Tendo como base o esquema desenvolvido pelo estudioso da narrativa Joseph Campbell, conhecido como a “Jornada do Herói”, o fragmento de saga recortado no filme de Livia faz evidenciar a circularidade da jornada heróica, que sempre recomeçará. As teorias de Campbell tiveram enorme influência na criação de roteiros para Hollywood, incluindo o da saga Guerra nas Estrelas. Despido da profusão de efeitos especiais, o filme de George Lucas é sugerido no curta-metragem, reduzido a dois Jedis no deserto – tal qual uma maquete. Na realidade ficcional de nossa terra de ninguém não há espaço para as naves estelares, sobram apenas escombros de lucro desmedido e superfaturamento em nome do progresso.

“Propriamente é o erro da maquete que me interessa encontrar. O centro de gravidade da pesquisa é o momento posterior ao da ilusão ou do simulacro; é onde o real se apresenta em confronto com a sua representação”, revela Livia lá do alto. Na ficção do vídeo, realidade e representação se chocam como dois guerreiros em confronto. Impossível afirmar quem vencerá a batalha.

Processo Work in Progress