Residência Artística 2015

Marcello Nass Ruggiero

Bio

Marcello Nass Ruggiero: Formado em Publicidade e Propaganda pela PUC-SP, começou lá sua atuação como artista autônomo.

Buscando as partes criativas e artísticas provenientes do curso, se envolveu fortemente com a fotografia analógica e a filmagem e edição de video. Trabalhos estes que vem exercendo e contribuem como elementos de sua criação artística.

A pintura e o desenho, assim como a música estiveram sempre presentes em sua trajetória, a ponto de sua inquietação em querer fazer tudo ao mesmo tempo, faz e fez com que tais artes se relacionassem, vendo nelas elementos em comum.

Esta multiplicidade, está em essência na mistura do som e da imagem, andando juntas em seu trabalho.

O projeto

SOMIMAGE

Questionar o limiar existente entre o que é visual e sonoro, e como construímos correlações imagéticas depreendidas dos sons.

O som constrói imagens, e nos faz navegar por elas, ao mesmo tempo que as imagens contam histórias e estas possuem trilhas que fazem parte delas.

Serão apresentadas 03 diferentes obras, que se complementarão, mostrando as possíveis aplicações e interpretações sonoras vindas das obras estáticas.

Cada obra, de forma distinta, expõe esta relação de uma maneira, e o todo das obras será o desdobramento da relação do som na imagem.

O projeto visa investigar a inter-relação existente e pertinente aos campos visuais e sonoros.

Texto crítico

Por André Ricardo de Almeida

Marcello Nass Ruggiero – SOMIMAGE
A relação entre o som e a imagem, as possibilidades narrativas que se podem tecer pela junção desses dois elementos, é para o artista Marcello Nass uma questão que ultrapassa as fronteiras do vídeo ou do cinema. Os trabalhos produzidos ao longo da sua residência no LABMIS apresentam uma diversidade de meios expressivos, misturando pintura, fotografia, som e vídeo. O interesse pela multiplicidade de linguagens parece se conectar muito diretamente com a trajetória do artista, já que sua formação profissional não se inicia propriamente em artes visuais, mas em comunicação social e publicidade, curso através do qual ele teve contato com a fotografia e o audiovisual.

Para o projeto de residência no LABMIS, Marcello desenvolveu três obras, sendo uma em fotografia, outra em vídeo e, por fim, uma pintura. Cada qual conta com uma peça sonora específica.

No trabalho com a fotografia, a imagem é composta por uma cena de marina, com um barco em primeiro plano. Sobre esta imagem, o artista inseriu recortes extraídos da própria fotografia e dos gráficos sonoros correspondentes ao som da obra. O recurso da fragmentação e sobreposição também se faz presente na trilha. Na medida em que o som se desenvolve, o observador busca uma correspondência na imagem, almejando uma conexão que nem sempre se dá de imediato. O que faz com que o olho passeie pela imagem e a detenha em seus fragmentos mínimos. Os movimentos dos olhos e o andamento do som geram uma situação instável que, na duração da obra, pode levar a um estado de quase deriva. O que seria pertinente se atentarmos o fato de que trata-se de uma imagem de marina.

Já no vídeo, temos um outro tipo de situação. As imagens, embora estáticas, são animadas como em uma sequência de slides. O som, dessa vez, é uma peça fundamental na passagem de uma imagem a outra, acentuando os contrastes entre as imagens e determinando sua duração, que também é diversificada. Apesar da aparente simplicidade das imagens, duas garrafas em primeiro plano com um recorte da paisagem ao fundo, é marcante a presença do som como propositor de climas e narrativas. A trilha sonora é produzida seja a partir de instrumentos musicais convencionais, ou através de registros sonoros que remetem ao objeto adotado nas imagens, as garrafas. Assim, percebemos ruídos de abertura de tampa, contato entre vidros, som do ar ecoando em uma garrafa vazia, som de água sendo despejada em um copo. Não poderíamos deixar de observar a menção que essas garrafas parecem tecer a respeito da história da pintura. Não apenas por serem um elemento marcante no gênero de natureza morta, mas também pela dimensão metafísica das composições, algo que nos remete a pintura italiana do início do século XX, com destaque para a obra de Giorgio Morandi e Giorgio de Chirico. Postas em um espaço geometrizado, como uma caixa branca com o fundo vazado para a paisagem, essas garrafas tem sua presença tencionada no espaço, trazendo a paisagem para seu interior ou espelhando sua forma no vazio. Formas que, inclusive, podem adquirir certa aparência monumental, ou criar um jogo dúbio entre continente e conteúdo quando postas lada a lado. Dependendo do contexto compositivo, chegam até mesmo a assumir certa personalidade, se comportando como personagens em uma cena. Mais uma vez, o som atua como um elemento que interfere e conduz a leitura do observador sobre a imagem, reforçando uma narrativa.

Por fim, temos a pintura. Trata-se de uma composição em blocos densos de amarelos, cinzas e pretos sob um fundo azulado. A composição e o ritmo dos gestos e áreas de cor criam uma situação rítmica que se adensa no tempo da observação. Essa dimensão temporal que a obra instaura se aproxima da música, desdobrando-se num determinado espaço de tempo. Tal constatação não é uma novidade, e mais uma vez sugere uma citação à história da pintura, tendo sido já muito discutida, sobretudo na primeira metade do século XX por artistas que se voltaram à ideia de abstração em arte. Poderíamos pensar em Kandinsky e Paul Klee, por exemplo. Fato que nos faz questionar sobre a pertinência da gravação sonora que acompanha a pintura. Afinal, se na pintura já existe uma dimensão sonora/musical/temporal, qual seria então a pertinência de adicionar o som? Não seria este um gesto redundante?

Olhando a obra com distanciamento, compreendendo-a apenas como um objeto acabado e encerrado em um si mesmo, essas questões provavelmente encontrariam uma resposta afirmativa. Por outro lado, poderíamos também pensar no uso de recursos sonoros na produção de documentários sobre a obra de artistas. Na maioria dos casos, a imagem da obra é acompanhada por uma trilha que sublinha seu conteúdo, podendo, como costuma acontecer, engrandecer sua presença ou reforçar aspectos subjetivos.

Contudo, no caso da obra apresentada por Marcello, a peça sonora não é exatamente uma leitura da pintura ou a pintura uma ilustração do som, bem como, este não está posto para sublinhar a pintura. Na verdade, as linguagens não se hierarquizam na constituicão da obra, o que se prioriza é perceber as possibilidades que essa relação pode oferecer enquanto proposição poética. Fundar um caminho entre a produção de uma pintura e a especulação sonora é, desse modo, o problema no qual o artista se debruça.

O potencial especulativo dessa tensão entre som e imagem se evidencia ainda mais nos pequenos desenhos em papel que Marcello executa como uma espécie de estudo. Embora ele não tenha considerado expor esses exercícios ou mesmo seus instrumentos de trabalho, que são muito interessantes inclusive, abordá-los é crucial para uma aproximação mais estreita ao processo de pesquisa do artista. No caso dos esboços, onde não há a exigência de uma obra enquanto objeto acabado, o que se privilegia é a comunhão entre o pensamento e a produção. Realizados em papéis de dimensões modestas, no máximo um formato A4, esses estudos assumem uma rica variedade de recursos e proposições. Em alguns, Marcello utiliza instrumentos muito simples, como lápis grafite e giz de cera, sendo o trabalho uma anotação, sem cerimônia, sobre um som, ideia ou sensação. O interessante nessas anotaçoes é sua profunda conexão com o som, que pode ter sido gravado antes ou depois. Quando unidos, fica evidente a interação entre um e outro, e, mais do que isso, a constituição de um vocabulário plástico sonoro muito particular. O que está em jogo nesses estudos não é um resultado a priori, mas a formulação de perguntas. Ou seja, o pensamento posto na dimensão do fazer.

Outro elemento importante no processo do artista é o uso de um violão cujos braços ele revestiu com pequenos filetes de papel colorido, cada qual servindo como referência a uma nota. A correspondência entre as cores e as notas se dá pela intuição, seguindo uma lógica própria, sendo esta pautada nas sensações cromáticas dos sons. Voltando agora a pintura, poderíamos pensar as cores da paleta de Marcello também como elementos sonoros. Estas, quando depositadas na tela, ganham variações, se dilatam ou retraem, se afirmam luminosamente ou se miscigenam produzindo novos timbres. O modo como o artista aplica a tinta na superfície também é um fator fundamental na constituição de vibrações. As massas de cor são postas com certa franqueza de gesto, parecem mais preocupadas com a ação construtiva, do que com a produção de efeitos. As frestas de branco, as áreas que foram deixadas intactas na tela, contribuem para a vibração das massas, deixando-as mais luminosas e trêmulas. Os vazios que ecoam em partes da pintura, bem como os ruídos, se adensam quando escutamos a gravação. Esses intervalos só existem porque tem algum estofo sonoro que engendra a obra. É a presença do som, mesmo que ainda não externalizado em uma gravação, que parece fomentar os gestos, as cores e os espaços da pintura de Marcello.

Processo Work in Progress