Residência Artística 2017

Fernanda Pessoa

Fernanda Pessoa
Bio

Fernanda Pessoa é cineasta e artista visual, mestre em cinema e audiovisual pela Université Sorbonne Nouvelle. Dirigiu curtas e o longa-metragem Histórias que nosso cinema (não) contava (2017), com exibição em mais de 20 festivais nacionais e internacionais. Realizou a videoinstalação Prazeres proibidos no MIS. Atualmente finaliza seu segundo longa-metragem documental.

O projeto

Zona Árida

Zona árida é um documentário interativo que permite visitar a cidade de Mesa, no Arizona, eleita pelas universidades do MIT e da UCLA como a cidade grande mais conservadora dos Estados Unidos. Por meio de um questionário e um mapa interativo, o visitante pode explorar lugares da cidade como a fronteira com o México, igrejas mórmons e um rodeio, além de conversar com moradores sobre assuntos cotidianos e da política atual. A cineasta Fernanda Pessoa foi uma aluna de intercâmbio em Mesa em 2001, e retornou à cidade para realizar o projeto dois meses antes de Donald Trump ser eleito em 2016. Zona árida é também um longa-metragem em pós-produção, e parte de uma experiência pessoal para falar de algo universal: o conservadorismo.

Documentário interativo 25’

Orientador conceitual:
Diego Moreira Matos

Orientador técnico:
Bruno Caldas Viana

Web designer:
Guilherme Falcão

Diretor de fotografia:
Rodrigo Levy

Assistente de direção:
Mari Nagem

Som direto:
Corbin Billings

Projeto expográfico:
Flávio Franzosi

Texto crítico

Diego Matos

Zona árida: por um périplo político-afetivo no audiovisual

Zona árida é projeto de rara totalidade material e conceitual no território da fronteira entre o audiovisual e as artes visuais. Se numa apreciação formal mais imediata é possível distinguir a concretização de um documentário interativo, disponível à navegação do público, por outra, mais aprofundada e alongada no tempo de um processo de trabalho, é perceptível a construção matizada de uma estratégia artística de fundo político que intercambia três aportes da produção cultural contemporânea: o cinema documentário, a videoarte e o trabalho de arte – esse último, da construção de imagem ao espaço de instalação, que, aliás, é o que aqui se concretiza.

A realizadora e artista Fernanda Pessoa (São Paulo, 1986), um dos nomes em destaque de uma geração que vem borrando os campos conceituais do cinema e das artes visuais, produz uma plataforma audiovisual em que conduz uma narrativa mestra de natureza poética e documental na qual tece aberta e sofisticada leitura cultural e política de Mesa, no estado do Arizona, EUA, considerada a cidade mais conservadora do país em termos de valores políticos. Não se trata, entretanto, de cientificismo social em formato documentário, pois sua abordagem é profundamente ancorada nas noções de lugar e paisagem, comunidade e território. E essa produção só acontece da forma que é por ter a experiência afetiva da realizadora enquanto lastro de enredo e memória histórica.

Fernanda viveu em Mesa quando do seu intercâmbio escolar e cultural em 2001. Tal experiência do passado constrói de forma indelével um elo preciso entre a narrativa que se escreve com suas mais diversas aberturas e a realidade múltipla a ser observada, permitindo então a construção documental poética. Como sempre pontua o cineasta chileno Patricio Guzmán, o tema que se filma é no mais das vezes de origem pessoal e a visão de mundo de cada um interfere na edição final. Essa edição é o risco no qual a realizadora nos coloca e nos perturba, ao se implicar na condição estrangeira do latino-americano em permanente conflito no território e na cultura norte-americanas.

Em relevância, pode-se aventar que Zona árida é de forma indireta a ativação do que a cientista política francesa Chantal Mouffe define como o Político, qual seja, em primeiro grau, “a dimensão inerradicável de antagonismo que existe nas sociedades humanas” . No nosso entender, tendo em vista uma percepção agonista da política, a cineasta constrói como estratégia de trabalho uma espécie de interiorização dos conflitos para enfim externá-los e causar perturbação na apreensão que fazemos da realidade e dessa em relação ao binômio história e memória.

Processo Work in Progress