Residência Artística 2017

Gabriel Toffetti

Gabriel Toffetti
Bio

Gabriel Toffetti Cintra de Pinheiro (\Eroica) nasceu em São Paulo em 1993. Artista autodidata, investiga as confluências entre sociologia, tecnologia e artes plásticas. Interpretando a Internet como um inédito período histórico, cataloga simbologias e, por meio de obras de arte tituladas “pinturas inteligentes” – smartpaintings –, ensaia a elaboração de um retrato warholesco do presente século.

O projeto

\Eroica

A princípio nós não somos nós sem a presença sensível de um dispositivo tecnológico. Desktops, notebooks e smartphones são a impecável extensão da nossa humanidade, e sua ausência é virtualmente inconcebível. Se compartilhamos uma mesma enunciação, logo residimos outra vez em um continente único – a Pangeia do século novo – que, entretanto, é digital, imaterial. Com o propósito de formar um acervo de inéditas (im)potências, apresentamos uma “pintura inteligente” (ou “smartpainting”) com aparência de página de internet a ser explorada por intermédio de um aplicativo. Dois, aliás: Artist’s App (AR), investigações em realidade aumentada; e Artist’s App (VR), investigações em realidade virtual.

Instalação:
aplicativos de AR/VR e smartpainting (pintura inteligente)

Orientadores:
Felipe Parra
Nathalia Lavigne
Ricardo Ferrari

Texto crítico

Nathalia Lavigne

Contemplar uma pintura tradicional já não é mais a mesma experiência em tempos de celulares smartphones sacados do bolso a cada instante em salas expositivas, fenômeno que ganhou força nos últimos anos na maior parte dos museus. Ver e fotografar uma obra de arte, para muita gente, se tornou quase a mesma coisa; mira-se a tela logo em frente já por meio de outra, sacamos uma foto e, em poucos segundos, saímos satisfeitos.

As definições do artista e teórico Julio Plaza sobre os três graus de abertura de um objeto artístico até se chegar à interatividade – característica da arte digital pela relação entre o usuário e um sistema inteligente – ganham novas leituras nesse contexto em que qualquer trabalho se mostra potencialmente interativo.[1] Mesmo uma pintura criada nos moldes tradicionais, ao ser reproduzida, editada ou até memetizada quando compartilhada em rede, não passa unicamente por uma participação passiva em seu processo de recepção. A contemplação também cede espaço a uma manipulação que antes não era característica desse tipo de trabalho.

O projeto realizado por Gabriel Toffetti durante sua Residência LABMIS 2017 parte de algumas dessas questões para explorar uma ideia além: como seria trazer o gênero da pintura para o universo das “telas inteligentes”? O celular também entra como um objeto intermediário, mas, nesse caso, como um item necessário no processo de fruição. Suas smartpaintings (“pinturas inteligentes”), criadas no Photoshop, também poderiam ser classificadas como desenhos digitais. Assim foram chamadas, por exemplo, as obras feitas em 1985 por Andy Warhol no computador Amiga 1000, incluindo uma lata de sopa Campbell’s e uma releitura da Vênus de Botticelli com um terceiro olho. Mas a opção de Gabriel por manter o nome pintura, mesmo não utilizando tinta, pincéis ou qualquer material associado ao suporte, é também uma forma de repensar tais definições quando trazidas para a esfera digital.

O desenvolvimento dos trabalho procurou mesclar três tipos de apresentações, cada uma associada a uma forma distinta de recepção por parte do público. É possível contemplar, no sentido mais tradicional, duas pinturas impressas em grande formato para a exposição; pode-se interagir com os trabalhos com o celular por meio de um aplicativo de realidade aumentada [Artist’s App (AR)]; ou, ainda, por outro de realidade virtual [Artist’s App (VR)], que permite uma experiência imersiva nos ambientes das telas usando óculos que oferecem a perspectiva 3D. De certa forma, estão presentes no projeto os três graus de abertura descritos por Plaza: o primeiro, de uma participação passiva, apenas da ordem da contemplação; o segundo, que introduz uma participação ativa; e o terceiro, que supõe uma reciprocidade entre o usuário com os sistemas inteligentes dos aplicativos desenvolvidos pelo artista.

O aspecto visual das telas mimetiza o excesso de elementos do universo digital, com novos ícones e barras que se abrem a cada interação. As referências à estética de redes sociais como Facebook ou Instagram, por sinal, é bastante presente nos trabalhos, às vezes de forma quase literal. A temática das obras também perpassa algumas questões atuais no universo das novas tecnologias. A começar pelo título do projeto: [Todas essas horas de navegação não remuneradas], que remete à discussão sobre o quanto geramos de dados e conteúdo gratuitamente para empresas de tecnologia sem que tenhamos muito controle ou consciência disso. Questões sobre privacidade e segurança também aparecem como temática da obra principal, com referências ao clássico escândalo da PRISM revelado por Edward Snowden em 2013.

Embora seja um trabalho ainda em desenvolvimento, as smartpaintings de Gabriel Toffetti apontam um caminho com amplas possibilidades de experimentações utilizando a já recorrente interação de visitantes com obras de arte por meio do celular. E a pintura, ao menos desde que o artista húngaro László Moholy-Nagy produziu uma tela passando as instruções por uma chamada telefônica, em 1922, também se mostra um campo aberto a essa interatividade.

Processo Work in Progress